
“Não me tragas problemas, traz-me soluções”
Agosto 20, 2025
Liderança no Divã
Agosto 20, 2025Liderar é ver através de olhos que não são os nossos:
Alinhar perspetivas para decisões verdadeiramente colaborativas O Cenário Familiar da Frustração em Reuniões Desalinhadas
A reunião arrasta-se, uma hora além do previsto. O debate persiste, agora alimentado apenas pelos mais determinados ou pelos mais diretamente implicados no tema. Os restantes já mal disfarçam o cansaço: olhares perdidos, a discreta consulta do telemóvel, ou um silêncio resignado perante o desconforto partilhado de mais um encontro onde muito se discute e pouco, ou nada, se resolve.
A frustração é palpável, mesmo por detrás de expressões cuidadosamente controladas. Paira no ar a sensação de improdutividade e, talvez mais crítico ainda, a perceção de que as questões fundamentais nem chegaram a ser verdadeiramente exploradas.
Recuemos ao início. A agenda é apresentada: tópicos operacionais, informações urgentes, decisões críticas a tomar. Um dia normal na vida de qualquer organização.
Contudo, logo no primeiro ponto, instala-se a dissonância. Um gestor argumenta que a falha reside na comunicação deficiente – a informação circulou de forma fragmentada, impactando o cliente. Outro colega contrapõe, defendendo a realidade do seu departamento: recursos limitados, pressão constante, uma equipa em modo reativo, “a apagar fogos” diariamente. Este padrão de perspetivas divergentes repete-se, tema após tema.
Para Além da Fachada da “Falta de Empatia”
Intuitivamente, sentimos que compreendemos o problema. Falamos em falta de empatia, na dificuldade em “calçar os sapatos do outro”, na necessidade de melhor comunicação. Mas o que significa, na prática, essa “melhor comunicação”? Será apenas uma questão de escolher as palavras certas ou de ouvir com mais atenção?
A questão é mais profunda. Frequentemente, o obstáculo não reside apenas na forma como comunicamos, mas naquilo que implicitamente acreditamos estar a comunicar e a perceber. Partimos do pressuposto implícito de que todos vemos a mesma realidade.
Frame Storming: Do Brainstorming à Compreensão Partilhada
Enquanto o brainstorming encoraja a suspensão do julgamento crítico para a geração de ideias, proponho um passo anterior, igualmente libertador: iniciar as reuniões com um Frame Storming – uma exploração deliberada de perspetivas individuais.
E se, antes de debater soluções, dedicássemos tempo a uma premissa fundamental: a minha perceção não é necessariamente a sua perceção? E se partilhássemos abertamente os nossos “frames” – os modelos mentais, as perspetivas e as lentes através das quais cada um interpreta a situação em análise?
A compreensão teórica da subjetividade da perceção é universal. Contudo, na prática, esta consciência dissipa-se rapidamente. Ficamos ancorados à nossa versão dos factos, influenciados pelas emoções despoletadas por pontos de vista diferentes, especialmente quando decisões críticas se avizinham. No calor do debate, raramente paramos para alinhar estas assunções fundamentais.
Estudo de Caso: O Comité de Direção e o Dilema da Inteligência Artificial
Consideremos o Comité de Direção (CODIR) de uma empresa de renting automóvel. Estão presentes o Diretor Geral e os responsáveis pelas áreas Financeira, Comercial, de Recursos Humanos e Operacional. Na agenda: a integração da Inteligência Artificial (IA) nos processos.
A proposta concreta: implementar um chatbot para qualificar leads na fase inicial do funil de vendas, utilizando mensagens automatizadas para despertar interesse.
Tecnicamente, a solução parece viável. No entanto, a discussão desvia-se rapidamente do foco.
O Diretor Comercial argumenta que o contacto inicial é crucial para transmitir a proposta de valor da marca – automatizá-lo comprometeria o compromisso de proximidade e personalização. Tenta articular o seu frame, centrado na experiência do cliente e na identidade da marca.
Mas a conversa estagna. Em vez de explorar esta e outras perspetivas sobre o impacto da IA naquela organização específica, o diálogo deriva para abstrações: o potencial disruptivo da IA em geral, Elon Musk, o futuro do trabalho, polarizações políticas… Quarenta e cinco minutos depois, as diferentes visões estratégicas dos diretores sobre aquela iniciativa concreta continuam por explorar.
Ninguém ouviu verdadeiramente o “frame” do outro. A decisão está pendente e as tensões subjacentes persistem.
[Implementar o Frame Storming: Um Guia Prático]
Como podemos, então, usar o Frame Storming para alinhar perspetivas e fortalecer a estratégia?
Valorizar a Pluralidade de Visões: Partir do princípio de que cada membro da equipa observa a realidade através da lente da sua função, objetivos e experiência. Reconhecer que alinhar estas perceções é o primeiro passo essencial para construir uma estratégia coesa, e não um obstáculo a ultrapassar rapidamente.
Designar um Facilitador Neutro: Uma pessoa (idealmente em regime rotativo para desenvolver esta capacidade em todos) deve assumir o papel de facilitador. A sua missão não é conduzir a reunião para uma decisão, mas sim garantir que todos os “frames” relevantes são explicitados, compreendidos e respeitados, criando um mapa partilhado das diferentes perspetivas.
Perguntar Antes de Defender: A ferramenta central do facilitador (e de todos) são as perguntas abertas, focadas em desvendar a perspetiva de cada um. Antes de defender uma posição, procurar compreender: Que realidade está esta pessoa a descrever? Que critérios está a usar? Que preocupações ou prioridades estão a moldar a sua visão?
Mas sejamos frontais – e intelectualmente honestos: qual é o líder que, de forma espontânea, reconhece estas reflexões como inovadoras?
Infelizmente, tal como os diretores do CODIR reagiram aos diferentes frames de forma enviesada, muitos líderes interpretarão estas ideias através das suas próprias lentes – moldadas por experiências passadas, esferas de influência e, crucialmente, pelos seus mecanismos inconscientes de autoproteção.
E aqui reside o verdadeiro dilema: como garantir que cada líder individualmente adota uma postura isenta, imparcial e livre de vieses cognitivos, agendas ocultas ou jogos de poder? Como assegurar que haja consciência suficiente dos seus próprios mecanismos de defesa?
A resposta é simples – e desconfortável: não podemos.
Nenhum de nós consegue ser juiz em causa própria. Tal como num acidente de viação, o condutor tende, instintivamente, a proteger-se a si próprio. A metáfora do “lugar do morto” – o lugar do passageiro ao lado do condutor – ilustra bem este instinto de autopreservação. Estamos biologicamente programados para proteger o nosso ego. E a liderança não escapa a essa lógica.
Naturalmente, haverá diferentes graus de maturidade entre líderes, diferentes níveis de autoconsciência e abertura. Mas para que uma equipa de direção possa, organicamente, realizar Frame Storming com eficácia, é muitas vezes essencial contar com facilitação externa qualificada.
Um facilitador experiente – alguém com uma profunda compreensão das dinâmicas de poder, dos processos inconscientes grupais e das dimensões sistémicas das organizações – pode desempenhar um papel fundamental. Não se trata de mediar, mas de criar espaço para que as perspetivas individuais emerjam com clareza e possam ser integradas em sínteses verdadeiramente colaborativas.
Essa é a verdadeira maturidade organizacional: reconhecer que ver melhor não é apenas ver mais, mas ver com os olhos dos outros – e, por vezes, com a ajuda de alguém de fora.
Estudo de Caso: O Comité de Direção e o Dilema da Inteligência Artificial com
Facilitação Externa/Neutral
As Agendas Ocultas – O Elefante na Sala
Um facilitador experiente não irá somente intervir com base num guião e num conjunto de perguntas prévias que permitissem trazer/moldar a perspetiva de cada elemento da direção; mas irá também trazer, com sensibilidade e bom senso, reflexões acerca das relações de dinâmicas de poder – não de forma a fragilizar ou antagonizar, mas com a mestria necessária para aumentar os níveis de consciência grupal da direção.
Para ilustrar como um facilitador pode introduzir a discussão sobre dinâmicas de poder inconscientes num comité de direção, apresentamos o seguinte exemplo:
Objetivo: Promover a consciência e a discussão sobre as dinâmicas de poder implícitas que influenciam as decisões e interações dentro do Comité de Direção.
Para tal, propomos um ice breaker baseado no clássico “Dilema dos Prisioneiros”:
Numa situação hipotética, todos os membros foram presos por assalto à mão armada (e são também suspeitos de homicídio). O juiz teve uma conversa individual com cada um:
Se ambos confessarem, cada um apanhará 2 anos de prisão.
Se um confessar e o outro não, quem confessar sairá livre, enquanto o outro apanhará 20 anos de prisão.
Se nenhum confessar, ambos apanharão 6 meses de prisão.
Iríamos agora pedir a cada elemento da direção que escrevesse num papel, sem que o colega com quem fará parelha saiba o que escreveu: “Confesso” ou “Não confesso”. É neste dilema de confiança que muitas vezes nos encontramos num comité de direção. Quais poderão ser as minhas próprias agendas ocultas nesta dinâmica de grupo? Em que medida as minhas motivações não declaradas podem prejudicar o outro?
Com base nesta reflexão, convidamos cada membro a identificar e partilhar eventuais dinâmicas ou agendas ocultas que possam estar a influenciar a nossa comunicação e colaboração enquanto Comité de Direção.
Obstáculos ao Elefante na Sala – Um Exercício que Cria Espaço Psicologicamente Seguro
Claro que, na iminência de o elefante na sala não surgir, devido à dificuldade na assunção de uma agenda oculta, iríamos antecipadamente criar uma dinâmica intermédia, convidando em pares, e sem os holofotes do grupo, a que tenham uma conversa autêntica, tendo como mote os elefantes que estão na sala destes diretores.
A nossa experiência diz-nos que esta etapa intermédia é absolutamente necessária e imprescindível para que estas dinâmicas possam ter o espaço psicologicamente seguro para navegar.
À medida que o facilitador vai criando espaço psicológico para que os diferentes frame storming possam brotar no seio da dinâmica do CODIR, paulatinamente irá trazendo alguns dos frames/perguntas abaixo:
[Exemplos de Frames a Explorar pelo Facilitador Externo (Adaptáveis a Cada Contexto)]
Para ilustrar, numa discussão como a do CODIR sobre a IA, poderíamos explorar dimensões como:
Frame “Resolução de Problemas / Eficiência”:
Que problema específico esta solução visa resolver? Resolve-o eficazmente?
Que novos desafios ou complexidades poderá introduzir?
Que recursos (tempo, pessoas, orçamento) são necessários?
Frame “Estratégico / Longo Prazo”:
Qual o impacto esperado a curto, médio e longo prazo na nossa posição no mercado?
Como se alinha (ou não) com a nossa identidade de marca e visão estratégica? Que capacidades futuras esta decisão nos permite construir (ou limita)?
Frame “Sistémico / Organizacional”:
Como esta mudança afeta os diferentes departamentos e a sua interligação? Quais as implicações específicas (positivas e negativas) para cada área funcional?
Que potenciais resistências ou desafios de implementação podemos antecipar? Como mitigá-los?
Frame “Cliente / Mercado”:
Como esta decisão será percebida pelos nossos clientes atuais e potenciais?
Reforça ou enfraquece a nossa proposta de valor?
Como se compara com as práticas dos nossos concorrentes?
Conclusão – Pensar em Conjunto para Liderar Melhor
Estas perguntas são apenas um ponto de partida. São o instrumento para construir uma narrativa organizacional mais rica, integrada e sistémica.
O verdadeiro desafio – e a oportunidade – reside em encarar cada reunião não apenas como um fórum para tomar decisões, mas como um espaço privilegiado para pensar em conjunto.
E, por isso, é crucial a maturidade de um facilitador externo, capaz de forma inteligente de trazer à consciência grupal questões de agendas ocultas de poder, mecanismos de defesa inconscientes e as dimensões sistémicas da organização, e as complexidades inerentes ao mundo globalizado, volátil e imprevisível em que vivemos.
Quanto mais conscientes e explícitos formos sobre os “frames” que cada um traz para a mesa, mais nos aproximamos da verdadeira essência da liderança eficaz: a capacidade de ver o mundo através de olhos que não são apenas os nossos.
Porque só integrando genuinamente estas múltiplas visões é que o todo organizacional pode, de facto, aspirar a ser significativamente maior e mais sábio do que a simples soma das suas partes. E isso, sim, é um verdadeiro motor de avanço estratégico.

